Durante
uma tarde fria de inverno, um homem estava a contemplar da sacada do seu
apartamento, o mundo que se desenrolava pelas ruas e avenidas que dava para
ser observado do alto da sua torre. Doutra sorte, havia algo que ele não
compreendia, pois, tudo para ele era estranho, e, de algum modo, as pessoas
percebiam-no ser diferente dos demais, visto que, este rapaz possuía uma condição
financeira muito aquém da maioria.
Logo,
por sua vez, ele decidiu sair para dar uma volta pela cidade. Porém, na medida
em que ele caminhava, chegando à esquina de uma lanchonete, viu a um mendigo
que estava a revirar a lata de lixo atrás de reciclável para vender, ao passo
que começou a pensar o rapaz, porque havia tantas injustiças e miséria na
sociedade, a tal ponto dele chegar a refletir consigo, em silêncio, por alguns
instantes (enquanto observava o semáforo abrir), porque todos os homens não
poderiam estar na mesma condição social de igualdade a qual ele pertencia:
—
Qual a razão de a vida para algumas pessoas ser tão dura, enquanto que para
outras que possuem dinheiro parece ser tão suave? — objetou. — O que a de tão
diferente entre os homens, que sendo alguns ricos vivem em abundância e são bem
vistos pela sociedade; enquanto que outros, por outro lado, são tão pobres, que
precisam revirar lixo para sobreviverem? Isso é um absurdo...
Não
obstante, por assim dizer, este rapaz após atravessar a rua andou por mais
alguns metros, e percebeu a outro homem pedindo esmolas debaixo de uma ponte,
que dava para uma avenida muito movimentada e com bastante comércio, de forma
que, também, sobre este pedinte, consigo refletiu em silêncio:
—
Olha lá aquele outro homem! — pensou consigo. — É mais uma vítima das
injustiças sociais! — lamentou. — Ademais, por estar a pedir esmolas,
provavelmente ele não tem por onde fazer. Se bem que, porventura a morte ele a
procurasse, eventualmente, ela, quem sabe, livrá-lo-ia da sua ignomínia. Mas,
talvez estando lá debaixo da ponte, ele é mais forte em aceitar o seu destino,
do que tentar remediá-lo mediante ato tão deplorável que é suicidar-se. Além do
mais, quem sou eu para julgá-lo? Afinal de contas, eu não sei pelo o que ele
passou para estar onde está.
De
certo, diante de todas essas mazelas pelas quais ele caminhou, ocorreu que ao
voltar para casa, este rapaz percebeu que havia algo de diferente nele, algo
que de algum jeito lhe tocara o coração e a consciência durante o passeio. Por
conseguinte, após adentrar em seu apartamento, pensando sobre tudo o que ele
vira na rua, caiu no sono no sofá em que ele estava deitado em sua sala, e
adormeceu.
Consequentemente
um sonho lhe sobreveio, de modo que neste sonho, este rapaz sonhava estar
diante de Deus que assumiu uma forma brilhante como ao Sol, e calmo como a
brisa, e que o acolhia em harmonia num lugar que nem neste mundo, nem a
qualquer outra paragem parecida, esteve ele antes a ver. Por sua parte, maravilhado,
tanto quanto, também, assombrado, durante a estadia neste local que ele se
encontrava, o rapaz começou a questionar ao Creador:
—
Por que Senhor tu permite aos homens passar por tantas injustiças na Terra?
—
Não há injustiças! — respondeu o Sapienterno. — Pelo fato de estarem todas as
pessoas a fazerem no mundo, o papel que a cada um delas Eu Me propus a
representar.
—
Mas como pode Senhor no mundo não haver injustiças? — perguntou de maneira
retórica o homem inconformado. — Oras, por que existem pessoas que possuem
tantos recursos, enquanto que há outras que pouco ou nada possuem? Por certo,
por que nestes que pouco ou nada tem o Senhor se faz ser humilhado, se poderia
fazer-se melhor, ou seja, ser em todos os seres humanos iguais em suas
condições financeiras e sociais?
—
Eu Sou em cada um deles — disse-lhe o Majestoso — aquilo que de melhor Eu me
propus através deles existir! Pois, sendo Eu todos, e todos sendo Eu, então, o
que podem estes representar, senão, o que a Mim inculquei a viver por meio
deles?
Todavia,
o rapaz, no sonho, não se conformava com o que Deus lhe respondeu. E continuou
a interrogá-Lo:
—
Mas por que o Senhor mediante destas pessoas não se faz ser melhor? Pode o
Senhor a isso equivaler sendo Deus! Certamente é um absurdo ver tantas pessoas
infelizes pelo mundo, passando por necessidades e exclusão social.
—
Eu Sou o que Sou, e sempre serei o que me alvitrei a ser! — disse novamente o
Eterno. — Portanto, através de ti — explicou o globo de luz luminoso — Me fiz
homem de condições financeiras melhores para que pudesse com a sua riqueza,
compartilhar com quem pouco ou nada possui os seus recursos materiais. Contudo,
mesmo em tua abundância, em solidão tu habitas! Afinal de contas, ela te isola
da maioria dos demais.
Por
causa disso, o rapaz, sentiu que o Misericordioso havia lhe tocado na ferida,
ou seja, a solidão. Doutro modo, indagou-O:
—
Oras, por que através de mim o Senhor se faz só? — repreendeu-O. — Se pode o
Senhor se fazer acompanhado? Ser rico, então, é de alguma maneira errado?
—
Eu Sou através de ti solitário — respondeu o Creador — para que Eu possa
observar por meio da sua mente as pessoas que tu te apiedas! Visto que, foi por
esse motivo que tu foste buscar entender em espírito — ao sair do seu edifício
para passear —, porque a eles não sou semelhante a ti em carne, isto é,
próspero.
Isto
posto, o rapaz, percebeu que Deus estava a lhe dizer coisas que para ele não
faziam sentido. Ainda assim, ele continuava a perguntar ao Altíssimo, tentando
buscar compreender, a forma pela qual a sociedade humana é organizada:
—
Mas sendo o Senhor Deus... — titubeou — por que se põe a sofrer?
—
O que para tu é sofrimento — respondeu o Misericordioso — a Mim é uma maneira
de ser! — afirmou. — Pensas tu, que em ti, Eu Me faço ser tão diferente dos
demais? — revidou-lhe a pergunta. — Não! — atestou. — Eu Sou através de ti,
aquilo que tu suportas viver em tua dor. E sou neles, o que eles suportam
passarem em suas aflições.
Á
vista disso, o rapaz, ficou intrigado com a resposta que recebeu no sonho. E
interpelou por mais uma vez ao Creador, ansioso por descobrir o motivo de haver
tantas desigualdades sociais:
—
Mas por que o Senhor não se torna justo, bom e próspero entre toda a
humanidade? Tem o Senhor algum ódio aos homens, de maneira a se fazer passar
através de alguns deles, por tão ordinárias criaturas como estas que vivem em
exclusão social?
—
Nenhum homem Me é ordinário! — respondeu o Creador. — Eu Sou por meio de cada
ser humano, o que nele Eu quis Me fazer desenrolar. Portanto, a humanidade é a
forma pela qual ao mundo Me revelo pelos diferentes personagens aos quais
interpreto. E, sendo através do homem que no mundo Me realizo, é por meio de
pessoas como tu — que a Mim buscam em espírito como estas a fazer agora —, que
procuro entender a causa das injustiças sociais, ao perceber o contraste que
existe entre o bem e o mal, em decorrência das dificuldades que cada ser
humano passa na Terra.
Em
sequência aconteceu que o rapaz acordou do seu profundo sono todo suado e
assustado. E se perguntou:
—
Onde eu estava naquele sonho? — disse a si mesmo perturbado. — Pois, parecia
que eu conversava com Deus! Mas, eu não o compreendia. O que há de ser destas
pobres pessoas que neste mundo passam por tantas dificuldades, e a tantas dores
toleram?
Daí,
então, o Creador para ele apareceu em forma de anjo. E lhe falou:
—
Tu te compadeces deles, e Me procuras para poder entendê-los, haja vista ser
todos eles, assim como tu, filhos de Deus. Desse modo, é por entre a tua mente
que revelo a minha virtude, isto é, o anjo que me fiz ser. Conseguintemente é
através dessa virtude que tu deves também Me reconhecer mediante deles, por
cuja causa, eles também, possuem como a ti, as suas luzes interiores, ou dito
de outra maneira, os seus guardiões.
Dessa
forma, foi através do seu passeio pela cidade, que constatou o rapaz, que Deus
está em todos e todos estão em Deus! Pois, todo aquele que se condoer da
miséria e do desespero do próximo sem julgá-lo (mas procurando entender que o
sofrimento de cada ser humano é uma das maneiras pelas quais o homem pode
chegar ao Altíssimo por meio da compaixão), perceberá que Deus se faz compreensível
em cada ato ou cena que observamos no nosso cotidiano.
Por
fim, o rapaz discorreu consigo em solilóquio:
—
Louvado seja ó Misericordioso e Sapienterno Creador! — disse ao contemplar a
revelação divina que se materializou em sua sala. — Diante de ti, agora, estou
a perceber que o mundo é um grande palco, onde todos nós seres humanos estamos
interpretando uma peça de cada vez, através das eras pelas quais passamos ao
longo da nossa vida na Terra. Além do mais, é diante de cada representação que
o Senhor revela a tua grandeza, haja vista, ser por meio do homem, que Deus
demonstra todo o seu potencial infinito e de amor. No sofrimento, tu te tornas
grandes, pois, se não houvesse a dor, não haveria a possibilidade de
demonstrarmos condolência e refletirmos sobres as nossas próprias dores. Mas
que bom que eu te encontrei! Por que, agora, sou conhecedor dos mistérios
divinos, e posso aceitar melhor o sofrimento alheio, sem tomar-lhe as aflições,
mas, por outro lado, me motivando na medida do possível, em ajudá-los a
amenizar através deles, também, as minhas mágoas que são as culpas que carrego
dos males que pratiquei. Portanto, de agora em diante, posso mediante das
minhas posses financeiras, empreender maneiras de ajudar ao próximo a remediar
os seus sofrimentos, e, desta maneira, também remediar os meus, pois, doravante
compreendo — que ao auxiliar as outras pessoas —, estou de alguma forma
ajudando a mim mesmo, a curar os meus traumas e a sanar a minha mente, e, desta
forma, eu consigo me elevar em espírito até o céu. Amém!

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