quinta-feira, 14 de maio de 2026

 


Aconteceu em um determinado dia muito frio de solstício de in­verno, de um viajante, perdido, ficar perambulando pela praça de uma cidade, localizada no alto de uma montanha, em busca de uma hospedaria para se abrigar, após ter percorrido uma longa jor­nada extenuante de caminhadas e travessias entre vales e colinas.

Em vista disso, esse viajante, após conseguir se hospedar em um hotel que havia próximo a um pagode procurava entre os locais — que se reunia no centro da praça da cidade — se socializar, para po­der obter deles respostas sobre um desconhecido de quem ele ouvira falar muito, e que tinha por fama ser um grande alquimista, que sa­bendo usar das forças sobrenaturais da natureza, se dispunha de bom grado a curar aos enfermos, e a fazer maravilhas com sua arte.

Por causa disto, curioso por ver o interesse do forasteiro em ten­tar achar o curandeiro, aproximou-se dele um ancião de muita idade, de modo que esse senhor demonstrando muita empatia, para ele disse:

— Jovem rapaz! Vejo que tu estás a procurar ao alquimista que há muito tempo não o vemos mais, aqui na nossa cidade, e que a nós nos beneficiou bastante com a sua arte, e com o seu encanto. O que tu queres saber sobre ele? — perguntou o velho.

— Senhor! — exclamou o peregrino. — Quero aprender com ele a arte da alquimia! — respondeu-lhe o rapaz entusiasmado. — De maneira que eu possa também ser capaz de curar os enfermos, e, por conseguinte, dessa forma servi a Deus com o meu talento.

Por sua vez, o velho, olhando-o com um ar depreciativo argu­mentou:

— Meu caro jovem! Tu és um belo rapaz! E nesta tenra idade que tens, muito sonhas e desejas por se aventurar e fazer maravilhas. Por isso, percebo em ti este grande entusiasmo! Mas, acredito ser isto coisa da juventude. Pois, a esta a razão ainda falta, e as emoções muito enganam.

Todavia, o rapaz, percebeu que o velho não o estava levando a sério. E, meio que envergonhado, retorquiu-o dizendo com muita satisfação:

— Senhor! Estou mesmo disposto a aprender com o alquimista a arte de curar pessoas e de poder fazer maravilhas! Por isso, vim de muito longe para conhecê-lo, e estou muito contente de poder estar nesta cidade, da qual ouvi tantos viajantes e peregrinos falarem dela, de modo que, a este lugar eu também sempre quis conhecer.

— Rapaz! — exclamou o velho. — Tu és muito engraçado. — insinuou dando um leve sorriso irônico. — Vejo em ti muito entusi­asmo e força de vontade, contudo, ainda duvido que tu queiras mesmo com o alquimista aprender a velha arte da alquimia. Visto que, este é um segredo que só os iniciados conhecem, por terem sido instruídos em seus sagrados mistérios.

Diante disso, o rapaz, então, observando o velho com muita atenção, perguntou-lhe:

— Senhor! Quem és tu? Pois, o senhor me parece ser uma figura muito interessante, e de alguma maneira que não sei explicar, pres­sinto já tê-lo conhecido de algum lugar. Mas, ao mesmo tempo, sinto que o senhor está sendo muito sarcástico comigo. Tu tens algo a me dizer? — perguntou o rapaz desconfiado. — Conquanto, tenho um pressentimento estranho que tenho muito a lhe falar.

— Sou um velho carpinteiro — respondeu-lhe o ancião sorrindo — que há muito tempo mora nesta cidade. Já andei pelo mundo fazendo muitas obras. Mas, de todo modo, por ironia do destino, hoje vivo nesta mesma cidade na qual nasci, e que pretendo por aqui morrer. Entretanto, não se perturbe pelo meu jeito de ser! — disse o velho com um olhar profundo mirando os olhos do rapaz. — Pois, não sou uma má pessoa, e, percebo em ti, grande poder de realiza­ção.

Em razão disso, o jovem, dirigiu-se ao velho com curiosidade, e perguntou-lhe:

— O que o senhor sabe sobre o alquimista que tanto ouvi falar? O senhor o conheceu de fato? Ele te fez alguma cura, ou algo que tenha marcado positivamente ao senhor?

— Eu o conheci sim! — respondeu-lhe o velho esfregando as mãos frias buscando esquentá-las. — Este homem foi muito boa pessoa. — elogiou-o. — Graças a Deus não precisei me consultar com ele a despeito de nenhuma doença. — expressou novamente sorrindo. — Ele realizava muitas curas, e ajudava muito o pessoal daqui da cidade, e dos vilarejos próximos. Era um erudito! — excla­mou extasiado. — Muito estudioso, porém pouco se interagia com o pessoal de uma maneira, digamos assim, mais intima. Ele era um ser um tanto solitário, porém muito dotado a realizar a sua arte com esmero.

Por esse motivo, o rapaz, alegrando-se pelo o que o velho con­tava, perguntou-lhe mais, demonstrando maior interesse na con­versa:

— E como ele era? Como o senhor poderia me descrevê-lo? Quais são os hábitos dele? Onde ele morava? Quero ir conhecer a sua casa. — disse vibrante o rapaz ansioso por respostas.

Dado isso, o velho, então, descreveu-o. E indicou onde o alqui­mista morava:

— Ele era de altura mediana; tinha cabelos brancos um tanto compridos, mas não era muito dado a fazer amigos. Era uma pessoa relativamente tranquila, entretanto pouco afeita a se envolver com a comunidade — ainda que a ela tenha prestado muitos favores. O local no qual ele residiu, antes de ir embora, ficava logo ao final da estrada do vilarejo onde ele nasceu, porém, o alquimista cresceu aqui, nesta cidade. Era de família simples, não obstante, os seus pais eram pessoas muito trabalhadoras e lhe deram a melhor educação que poderiam lhe proporcionar. Todavia, eles sabiam ser o seu filho uma pessoa, por vezes, diferente dos demais, pelo grande interesse que ele demonstrava em aprender e estudar.

Isto posto, o rapaz continuava a demonstrar ainda mais interesse em saber sobre o alquimista. E ao velho interrogou:

— Mas e aqui na cidade? Onde ele morava? Qual a rua, a casa, o local em que ele trabalhava?

— O alquimista morava a duas quadras aqui da praça — respon­deu-lhe o velho — à direita de uma velha choupana! — disse sor­rindo coçando o queixo. — Ele tinha por residência uma casa sim­ples de dois andares. Era um ser bastante solitário, mas não era mal visto pela comunidade. Também tinha por hábito a toda manhã sair e a caminhar até aqui, na praça, para poder observar os pombos a ciscarem pelo chão.

— Leve-me senhor, pois, até o local da residência dele! Porque quero estar lá para conhecê-lo.

— Como já te falei — tornou-lhe o velho a respondê-lo — o al­quimista não mais está entre nós! Porém, posso te dizer, que ele sempre foi muito receptivo aos desconhecidos. Contudo, muito mais ainda receptivo aos que o buscavam para investigarem sobre a ver­dade, de modo a poderem conhecê-la, por meio de pesquisas, teorias e debates sobre diversos campos das ciências exatas e humanas.

— Pois estou muito interessado em conhecer a verdade através dos estudos, teorias e pesquisas cientificas! — retrucou o rapaz mostrando um entusiasmo ainda maior ao velho. — E quero muito poder servi-la com dignidade e fervor, mediante o meu talento que tenho de investigar os mistérios. Daí eu ter interesse em conhecer o alquimista, para que com ele eu possa aprender e me desenvolver espiritualmente.

Não obstante, o velho, que já se encontrava em pé escorado por um bastão, então, parou e observou o jovem rapaz com certa curio­sidade. E a este falou:

— Sim! Vejo em ti muito entusiasmo e força de vontade! — tor­nou a dizê-lo novamente. — Todavia, a verdade cobra muito dos que a querem conhecê-la. — afirmou com certo desdém do rapaz. — Pois, não basta ao homem ter força de vontade e ardor para compreendê-la. — aludiu. — Há que também ter fé! — afirmou com um leve sorriso de deboche. — Para poder ir ao encontro dela (até mesmo onde a razão pode não enxergar).

— Pois tenho a ambos! — respondeu-lhe o rapaz confiante. — E, a verdade procuro-a com muito fervor, estudando, meditando e me espelhando em sempre aprender com aqueles que são iniciados nos mistérios sagrados.

— Sim! — corroborou o velho com o rapaz. — Vejo ser tu uma pessoa que tem os seus objetivos bem claros, e que está a conseguir alcançá-los, por já ter chegado aqui, vindo de tão longe. No entanto, percebo em ti que ainda há certo encanto místico com alguém que tu nem sequer ainda conheceu.

— Eu sou muito encantado pelas realizações deste alquimista que tanto ouvi falar. — replicou-lhe o rapaz. — Por ele tenho respeito e admiração! — afirmou. — Mesmo não o conhecendo. Se bem que, tenho certeza que pela fama e por tudo que dele ouvi dizerem, este deve por ser uma pessoa extraordinária, e um ser de elevado nível espiritual.

Por conseguinte, o velho, voltou a observar o rapaz com aquele modo e olhar que só os que já muito viveram conseguem notar, na­queles que estão ainda iniciando a sua jornada pelos caminhos tortu­osos da vida. E a ele disse:

— Filho! O que posso mais lhe dizer é o seguinte: Tu tens pelo o que reparo muita força de vontade e poder de realização. — afirmou de novo o ancião notando a pro-atividade do rapaz. — Compreendo que de muito longe tu vieste para encontrar e aprender com o al­quimista a sua arte. Entretanto, a ti só posso mais isso acrescentar: Não busques a quem tu não saibas que te quer por bem ou por mal. Mas, porventura, busques aqueles que a ti lhe instruirão a ser por pessoa mais sábia, e por espírito mais elevado.

Contudo, o rapaz, não entendeu o que o velho queria lhe dizer com o que ele lhe falou. E o indagou:

— Senhor! — disse confuso. — O que o senhor quer dizer com isso?

— A coisas que tu só saberás — meu caro jovem —, mediante a tudo o que tens ainda por aprender, com os desafios que a vida o testará. — respondeu-lhe o velho se despedindo do rapaz. — E aprendendo com ela, tu entenderá que a vida te será ao longo da tua existência na Terra por mestre, no que com ela tu reconheceres como sendo verdade. E também lhes será por desafio, no que tu se negares a dar-lhes valor.

Porquanto, o rapaz ficou pensativo sobre o que o velho lhe falou. E para ele fez uma última pergunta enquanto este se ia embora:

— Senhor! — exclamou. — Mas o senhor sabe onde está este al­quimista? Pois, o senhor me disse muitas coisas, entrementes, não me respondeu se sabes onde ele de fato se encontra.

— Tu o encontrarás primeiro dentro de ti! — replicou-lhe o ve­lho ao longe. — E, após encontrá-lo, tu saberás que estás por ele sendo feito por discípulo, e ele a ti se fazendo por teu professor. Antes de buscares o que tu procuras nos homens, recorra a Deus, que Ele te fará chegar aonde tu desejas. — e partindo, deu o velho um aceno ao rapaz com a mão e se foi.

Em função disso, o rapaz, sentou-se em um banco da praça e fi­cou a pensar. Estava triste por não ter encontrado o alquimista que tanto queria conhecer, e com ele aprender. Contudo, pensando so­bre o que o velho lhe dissera antes de partir, reconheceu que havia verdade no que ele falava.

Passado mais um tempo e longe de sua casa, o rapaz, então, deci­diu por partir da cidade onde por pouco tempo permaneceu hospe­dado em um antigo hotel barato. Ele conheceu a casa onde o alqui­mista morava, e foi até o seu local de nascimento em um vilarejo próximo a cidade, como o velho o havia contado. Porém, estava pouco empolgado por não ter conseguido conhecer o alquimista, e decidiu, então, voltar a sua terra natal, e meditar melhor sobre o que ele tinha conversado com o ancião.

Destarte, aconteceu que estando o jovem no caminho de volta para sua casa, ele encontrou a um homem já de meia idade — se­melhante ao que o velho o havia descrito —, que estava em uma pequena cidadezinha a atender pessoas, de sorte que, muitos doentes a este senhor o procuravam, para que ele — devido a sua boa-von­tade — prestasse-lhes o seu atendimento médico. O rapaz, vendo que havia muitos pacientes a serem atendidos por aquele doutor, então, foi ver o que se passava. E perguntando a um dos locais, se expressou:

— Olá! O que está acontecendo aqui? Vejo que muitos estão en­fermos! — observou. — E que estão a consultar-se com aquele mé­dico.

— Sim! — respondeu-lhe o nativo. — Este quem nos atende é um médico muito bom! — elogiou-o o homem. — Ele vive de fazer caridade às pessoas mais humildes, que não possuem recursos finan­ceiros para pagarem por atendimento. Muitos a ele recorrem quando o encontram, pois, ele é reconhecido de longe por muitas pessoas que por ele foram curadas. Daí que vem a sua fama de bom doutor.

Por tudo isso que o nativo lhe falou, o rapaz, sentiu no peito um grande aperto. E logo consigo pensou:

— Será este o alquimista que estou a tanto tempo procurando-o?

E, dirigindo-se ao encontro do médico, foi o rapaz a ele fazer al­gumas perguntas:

— Desculpe-me interrompê-lo senhor! — proferiu o rapaz meio trêmulo devido à forte emoção, enquanto o médico se despedia de um paciente. — Com todo respeito, o senhor é aquele famoso al­quimista há quem muitos se referem como sendo um curandeiro, e que faz maravilhas com sua arte?

— Nada disso meu caro jovem. — aludiu. — Eu sou só uma pessoa que a muitos procuro ajudá-los com o meu talento! — disse-lhe o médico humildemente sorrindo. — Mas, não faço maravilhas como dizem por aí. Sou apenas um médico! E tenho por trabalho ajudar aos mais necessitados. Pois, esta foi à missão da qual fui in­cumbido de fazer neste mundo, ajudar as pessoas que precisão de atendimento.

Logo, o rapaz com um brilho no olhar e achando quem tanto vi­nha procurando, se expressou:

— Estou há muito tempo te procurando! — disse ele extasiado tomado por uma forte alegria no coração. — Fui até a cidade que me disseram que o senhor residia, e lá estive a perambular para ver se lhe encontrava para poder conhecê-lo. Hoje estou contente de tê-lo achado! E muito eu quero aprender com o senhor.

Porém, o alquimista, então, ao rapaz observou-lhe e perguntou:

— O que queres comigo aprender?

Entrementes, o rapaz ouviu com certo distanciamento a maneira pela qual o alquimista o interpelou, achando-o um pouco frio pela forma que ele falou. Ainda sim, confiante, retorquiu-lhe o jovem demonstrando certo acanhamento:

— Alquimia! — respondeu-lhe o rapaz enérgico. — Estive a me­ses procurando pelo senhor para que pudesses me ensinar a tua arte, de modo que eu fosse pelo senhor instruído em praticá-la. Logo, não sei mais nada além do que o senhor pode me ensinar com a sua sa­bedoria.

Por sua vez, o alquimista percebendo a atitude confiante do ra­paz, respondeu-lhe:

— Eu Sou um médico que faço o que muitos dizem serem mara­vilhas, ao conseguir ajudar a inúmeras pessoas a se curarem. Mas, faço isto, meu caro rapaz, porque estou exercendo o dom espiritual que eu sempre soube ser capaz de aplicá-lo aos mais necessitados! Pois, ouvindo aquele que em espírito e verdade dentro de mim sem­pre habitou, é ele quem de fato, através de mim realiza a sua alqui­mia. Portanto, meu jovem, eu sou apenas o instrumento de trabalho do meu guardião.

— Mas este a quem o senhor se refere e diz ser o seu guardião, é alguma espécie de anjo? — indagou-lhe o rapaz curioso e extasiado. — Porquanto, tu disseste ser ele quem através do senhor realiza as maravilhas do teu ofício, curando as pessoas, e que tu lhe és por instrumento da sua obra. Isso que o senhor faz, então, é de algum modo algo sobrenatural? Daí de vir a tua fama?

— Se tu queres ser um alquimista — disse-lhe o médico com se­riedade —, tu deves primeiro descobrir se isto é o que de fato ele se propôs através de ti fazer. Não é a mim que tu deves recorrer para aprender sobre a arte de curar aos enfermos, mas, por outro lado, ao verdadeiro e único mestre que é superior a nós que tu deves buscá-lo adentrando primeiro dentro de ti, para te iniciares na jornada do autoconhecimento e dos mistérios sagrados.

Diante disso, o rapaz atencioso ao que o médico explanou-lhe, questionou-o:

— Mas e se em todo o caso, este mestre a quem o senhor se re­fere como sendo um guardião, quer que eu a ti recorra para poder aprender contigo ao trabalho que ele pode fazer através de nós? Não seria, então, da vontade dele, que o senhor me ensinasse à arte que ele através de nós pode com a sua inspiração, obrar?

Neste instante, percebeu o alquimista no jovem rapaz bastante perspicácia e força de vontade em querer aprender, o seu tão nobre oficio. E respondeu-lhe:

— Filho! Tu tens pelo o que vejo muita força de vontade em es­tudar e aprender! E por ter a mim procurado por tanto tempo, en­contrando-me agora, tu já provaste que és muito persistente e de­terminado em alcançar o teu objetivo. Não sei se o meu mestre inte­rior, que me faz ser capacitado a realizar as obras que faço, quer que eu a ti ensine a sagrada arte da medicina. Mas, o que posso a ti lhe dizer, é que tu tens que recorrer-lhe em seu íntimo meditando, para que assim, deste modo, tu possas através do teu silêncio interno, então, saber se estás mesmo preparado para tal empreendimento! Pois, este é um trabalho que exige muita dedicação e esforço. E, há que se conviver sempre com a sombra da morte, que ao médico surpreende quando ele menos espera, levando o seu paciente em direção ao juízo final, onde a alma será julgada e sentenciada por tudo aquilo de bom e ruim que ela cometeu ao longo da sua vida na Terra.

— A certeza de querer aprender eu a tenho! — replicou-lhe con­victo o rapaz ao alquimista. — Pois, a muito venho te procurando. É o senhor quem deves a Ele ouvir, e perguntar se a mim deves ensi­nar o que a ti ele te ensinou a fazer com tanto trabalho e esmero.

Logo, a bem dizer, o médico olhou o jovem rapaz com sereni­dade, pois notava nele realmente a determinação em estudar alqui­mia e aprender medicina. E propôs-lhe um desafio:

— Então vamos ver! — disse-lhe, de certo modo, instigando-o. — Se tu me responderes o que eu a ti lhe perguntar, saberei se devo ensinar-te o que a mim tu pedes para lhe instruir. Se tu não me res­ponderes conforme me for revelado, então pedirei que tu se vás! Pois, não poderei ajudar-te a encontrar o que tanto desejas, e a fazer o que tanto tu queres obrar.

Desse modo, por sua parte, concordou o rapaz com o termo do alquimista, e se pôs pronto a responder-lhe, ao que ele estava espe­rando do médico querer escutar:

— Estou pronto senhor a te responder, o que me perguntares! É só falar, que ao senhor alegremente responderei.

— O que o homem tem que a ele falta? Mas não tem o que ele deveria ter?

— O que o homem possui e a ele falta, é a fé! E o que ele não tem e deveria ter, é a certeza de poder encontrar dentro de si o que ele tanto procura. E achando, realizar o que a ele foi proposto neste mundo obrar. — respondeu-lhe o rapaz com uma lucidez sem igual.

Consequentemente a resposta do viajante, o alquimista obser­vando-o parado na sua frente, confiante, percebeu nele que tão ma­ravilhosamente lhe respondeu, era digno de aprender o oficio da medicina e da alquimia! Pois, a medicina é uma arte espiritual ori­unda da alquimia, por ser iniciática no conhecimento esotérico do corpo humano, sendo, portanto, daí, que advém a sabedoria velada no interior do homem.

Seguidamente, por sua vez, o médico replicou-lhe:

— Tu respondeste muito bem meu caro jovem! Fico feliz de ter encontrado alguém que realmente é vocacionado para aprender obra tão bela quanto maravilhosa que é à prática da medicina, e realizar o mais difícil ofício que existe que é cuidar de pessoas e salvar vidas.

Diante do elogio, o rapaz alegrou-se de o médico lhe ter aceitado por discípulo. E para ele falou:

— Eu que fico agradecido de o senhor estar disposto a me ensi­nar tão maravilhosa arte a qual o senhor exerce! Uma vez que, sendo o senhor instrumento da vontade do Pai, és tu também a Ele fiel e servo em espírito! De maneira que, só pode a humanidade encontrar a Deus, quando ela dentro de si O busca; e só pode Deus realizar a Sua obra através da humanidade, quando a mesma a Deus se permite fazer o que o Creador se propôs por meio dela obrar.

Para tanto, o médico vendo no rapaz a força de espírito que ele dispunha, se alegrou. E comentou:

— Sim! — exclamou. — Tu disseste bem meu jovem rapaz. Tu o tens por mestre, e nós o temos por Santo e protetor! Pois, Deus é quem faz a obra! E o homem a Ele só serve como instrumento da Sua vontade, e força do seu querer. Não obstante, para que isso seja possível, tem o homem que aprender a ouvi-Lo em silêncio dentro de si. E ouvindo-O, ele conseguirá realizar grandes obras! Portanto, é desta forma que o homem será uno com o Pai na unidade do Espí­rito Santo.  E o Pai, desse modo, será feito verbo no filho, de forma que ambos será uma só carne, e poderão fazer no mundo, o que Deus quer nele construir e realizar.

Em seguimento ao que o alquimista lhe falou, o rapaz, empol­gado, queria por logo começar a aprender o oficio da medicina, e se aprofundar nos conhecimentos sagrados da alquimia. E ao médico perguntou:

— Senhor! Quando poderemos começar os estudos sobre a al­quimia?

— Já o começamos desde o momento que tu chegaste! — res­pondeu-lhe o alquimista. — Antes de tu chegares, tu já estavas prati­cando-a. Agora que me encontraste, passaste a um nível sequente ao que estavas anteriormente em sua peregrinação. Pois, por objetivo tinha de me encontrar para aprender tão esmeralda arte! Agora, fa­çamos por dar continuidade ao caminho que estamos a trilhar.

— Mas o senhor, então, ainda está a trilhar neste caminho? — indagou-lhe o rapaz. — Eu pensava que o senhor já o tinha trilhado, por já seres conhecido pelo seu ofício.

— Este é um caminho que sempre estaremos a trilhá-lo! — res­pondeu-lhe o médico dando tapas no seu ombro. — Dado que, o mestre é tão aprendiz quanto o discípulo. Se não fosse assim, não haveria por mestres a ensinar, e nem a discípulos a aprender. O final da jornada está em realizar a missão em que através de nós o Pai se propôs a cumprir. E nós, a cumprindo com esmero, haveremos, pois, de sermos recompensados a ser com Ele, um só corpo e espí­rito. Além disso, estaremos integrados em seu Ser (não mais como potencial da sua vontade), entretanto como essência divina da Sua sabedoria.

— Mas se fazemos a homens mestres — insinuou-lhe o rapaz —, por que é tão difícil do homem encontrar a Deus? Mesmo que te­nhamos o homem por mestre, será que porventura, ele a Deus o encontrou?

— O homem só é mestre — respondeu-lhe o alquimista — quando ele se permite entregar-se a Deus para através de si agir, se­gundo a Sua vontade. O homem não deve recorrer ao homem como seu guia. Mas, por outro lado, aos que tomado pelo Espírito Santo possa aos seus semelhantes ensinar-lhes aquilo que o Pai em verdade e amor a eles ensinou, por tê-Lo encontrado antes medi­tando no silêncio dos seus corações.

Por conta disso, o rapaz, maravilhava-se por perceber no alqui­mista grande sabedoria e destreza com as palavras. E com ele mais queria aprender:

— Por que, então, de tantos se referirem a si mesmos como sendo mestres, se estes não encontraram ao Pai meditando e ouvido os seus corações? Mas, por outro lado, fazendo eles a sua arte, se julgam superiores e peritos nela?  Ainda que não saibam ou não acreditem que quem através deles concebe fazer o que sabem, é muito maior do que eles.

— Estes são tolos! — respondeu-lhe o alquimista. — Pois, eles só fazem o que são capazes por mera ação mecânica. Ou seja, de qualquer forma, sendo soberbos em fazer o que obram, eles não conseguem realizar algo de grandioso no tocante à arte que deveriam produzir! Dado que, para que haja esmero e beleza no que se faz ha que se entregar ao Pai a sua obra, e não se vincular ao que se pratica julgando-se dominante no que haja por construir por orgulho ou mesmo ostentação.

Por ora, o rapaz se emudeceu por um momento, de maneira que em seu silêncio ele refletiu sobre o que o alquimista lhe falará. E acrescentou:

— O senhor realmente possui muita sabedoria! Razão pela qual, vejo que a no senhor muita humildade e dedicação no seu trabalho. No entanto, também percebo que há no mundo tantos outros que semelhante arte praticam exercendo a medicina, que não possuem a mesma destreza e o mesmo encanto e beleza que o senhor a ela se dedica. Por que lhes é difícil o exercício da humildade? — interpelou o jovem rapaz.

— Eu dedico ao Pai Eterno a minha obra! — respondeu-lhe o alquimista a duvida. — Entretanto, os homens exercitam o que pen­sam engendrar pelas suas faculdades mentais, e ignoram o que lhes é revelado em espírito e verdade por Deus em seus corações! Porque, somente em espírito e verdade o homem pode se realizar totalmente como homem. Uma vez que, somente reconhecendo dentro dele quem de fato nele habita — o Divino Espírito Santo — pode o ho­mem prestar o devido respeito a Deus, por desse modo já conse­guir perceber ser o Creador, quem por meio dele realiza a obra da Sua vontade.

Entrementes, o rapaz se mostrava cada vez mais encantado com tudo o que o médico ensinava-lhe, e se propôs com mais convicção e vontade com ele aprender, demonstrando uma sede insaciável por respostas que o consumiam a alma, no esforço de encontrá-las por meio de suas pesquisas e estudos sobre diversos tipos de patologias, tanto como, também, na metafísica que ele fora com o médico se adestrando no decorrer do tempo.

Conseguintemente, após concluir os seus estudos com o alqui­mista, o rapaz, já formado pelo seu grande professor, retornou a sua cidade natal (assim como o alquimista também o fez), e realizou grandes obras que o fizeram ficar reconhecido pelas descobertas científicas na cura de doenças, e prevenções das mesmas, por meio da elaboração de fármacos e outras substâncias medicinais, que atua­vam no combate desses patógenos. Também, ele conseguiu com o passar dos anos, aprender sobre diversos campos de estudo relacio­nados às ciências herméticas, instruindo-se com paciência e perseve­rança no aprendizado destes mistérios sagrados.

Porquanto, infelizmente, aconteceu, porém, de o alquimista que foi instrutor do então iniciado, vir no decorrer de um longo tempo de serviços prestados a comunidade, falecer. E, sabendo por meio dos viajantes e andarilhos que viviam a peregrinar pelo mundo, so­bre a notícia da sua morte, o seu discípulo dirigiu-se ao vilarejo, onde, durante a sua busca espiritual primeiro ele foi, tentando en­contrar aquele alquimista de quem ele tanto ouvia falar, e que o ma­ravilhava e o fazia sonhar, por praticar a sua arte de curar pessoas.

Em sequência, chegando ao vilarejo, o iniciado encontrou um grande marco que os locais haviam feito em homenagem a tão ilus­tre pessoa que a eles tanto ajudou. Dessa forma, se aproximando do memorial — onde puseram lá enterrado o seu mentor —, ele aga­chou-se e chorou. Em seguida, ao prestar os seus pêsames, com a mão sobre a lápide onde enterraram o seu professor, veio até ele — de forma misteriosa — uma luz, que se compadeceu da sua tristeza e falou:

— Por que choras por quem nunca morreu? — interrogou-o o forte clarão.

— Eu choro por quem partiu. — respondeu o iniciado ao se le­vantar notando ser aquela luz sobrenatural um anjo. — Esta foi à pessoa que me orientou a ser hoje quem eu me tornei! E, por ele ter ido sem que eu me despedisse, fico entristecido de tê-lo perdido.

— Ele nunca partiu! — retorquiu-lhe a luz que parecia um ho­mem vestido de branco. — Ele está dentro de ti! — afirmou o forte clarão que reluzia como ao sol. — Visto que, tudo o que com ele tu aprendeste, no decorrer deste longo tempo de iniciação, agora, tu realizas com amor e maestria. Portanto, ó homem, tu foste para ele filho, assim como ele foi para ti Pai. Ou seja, tu és parte do seu espí­rito! Dado que, o velho alquimista te passou o bastão na arte em que tu foras por ele iniciado, e que agora, ficaste responsável de dar con­tinuidade a obra a qual ele fazia e a ti ensinou. Logo, é por tudo isso, que mediante a tua pessoa, hoje se realiza em verdade e beleza a continuação do seu trabalho, por meio de todos que dele se benefi­ciaram e se beneficiam, através do seu tratamento e acolhimento como doutor.

Por consequência ao que ouviu, então, o iniciado suspirando fundo e pensando no que aquela luz forte e misteriosa com ele co­mentou, seguidamente, colocou as suas mãos na cintura, olhou a lápide e o monumento com admiração e se exprimiu:

— Sim! — exclamou. — Tu tens razão no que me disseste! — corroborou. — Pois, este meu mestre dentro de mim vive, assim como eu nele estou presente em espírito. Tenho muito ainda a fazer! — anunciou. — Uma vez que, o que ele me ensinou em verdade hoje realizo com muita dedicação e amor. E o que ele me disse em segredo, hoje compartilho com os homens em obras. Quero sempre honrá-lo! — afirmou. — E honrando-o, estarei fazendo com que a memória dele nunca se apague. Haja vista que, pelas realizações que o homem faz, este é reconhecido pela sua força de caráter e vontade de aprender; e por aquele quem lhe dirige os caminhos, este lhe é seu mentor e senhor.

— Tu tens mesmo ainda muito a fazer! — motivou-lhe a luz que brilhava como uma estrela. — Por certo, tu continuarás a tê-lo por teu mentor, no decorrer de toda a tua vida, pelo que ele a ti educou.

— Sim! — corroborou o iniciado. — Eu sou ao meu mestre grato por tudo o que ele me ensinou a fazer.

— Deixa, pois, agora o corpo onde foi o seu mentor sepultado repousar, e volta tu para a terra de onde viestes! Ademais, lá há muito que tu tens por fazer. Porque, sendo tu por seu discípulo, é pelos teus feitos que preservarás a memória desse a quem te instruiu, dando continuidade no tratamento das enfermidades que assolam as pessoas.

Por fim, o já iniciado alquimista, se consolou por ter perdido o seu professor (não em espírito), mas fisicamente. Conquanto, ele aprendeu que a vida continua, e que a melhor maneira de se preser­var a memória de quem não mais habita em corpo com quem está encarnado, é passando adiante os valores que essa pessoa ao longo da vida cultivou e ensinou. Assim é a vida do homem! E o homem só se faz ser reconhecido por sua verdadeira obra, quando esta é realizada por Deus mediante o Cristo que habita em nossos cora­ções! Visto que, é o Divino Espírito Santo quem através do homem pode fazer maravilhas imensuráveis e que prevalecerão por todos os tempos e afins.

Finalmente, chateado e entristecido, se despediu o iniciado do memorial erigido ao seu mentor, e partiu de volta para sua cidade. Porém, consigo pensava:

— Diante de tudo isso que já passei, me sinto honrado por ter sido feito homem por tudo o que aprendi com o meu mestre. Por­tanto, a muitas pessoas hoje eu as curo através do meu ofício e de minha arte, e posso ajudá-las com o meu trabalho. Sou filho da San­tíssima Trindade! Assim, como sou do Divino Espírito Santo o seu instrumento de trabalho. Vivo, pois, agora a obrar não por minha honra e glória, mas, em todo caso, pela de meu Pai, que me capaci­tou a ser, neste mundo, a extensão da sua vontade. Amém!

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Sinopse

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